Acontecimento

No dia treze de janeiro do ano corrente de mil oitocentos e sessenta e cinco, ao meio-dia, Ielena Ivânovna, esposa de Ivan Matviéitch, meu culto amigo, colega de serviço e parente em grau afastado, quis ver o crocodilo que era exibido na Passagem mediante determinada quantia.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Crocodilo, p.15. São Paulo: Editora 34, 2000. Tradução de Boris Schnaiderman.

Mariposas

Quando chegou mais baixo, passou a voar rasante, sapecando a copa das árvores. De perto, a pista de dança perdia a aparência de flor. Transformava-se numa visão infantil de Ano Novo, um imenso emaranhado de lâmpadas coloridas brilhando por entre os ramos, de onde emanava música de surpreendente vulgaridade e estranha beleza.

PELEVIN, Victor. A Vida dos Insetos, p.51. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. Tradução de Lia Wyler.

Regozijo

Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo tudo o que existisse no mundo.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo, p.31 e p.32. São Paulo: Ed.34, 2000.

Busca

(…) o quê, propriamente, eu vim fazer aqui? - por que é que me sentia tão estranhamente atraído e seduzido pela vida desse homem que desprezava a mim (”é evidente”, “é sabido”, como ele gostava de falar) e aos meus semelhantes? (…)

TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.206. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Leito

(…)  e ele ficou admirado com a brancura do corpo do morto e pelo fato de esse corpo, que agora não passava de uma carcaça, ter sido virado e colocado sobre a palha,  que nos trabalhos forçados, provavelmente, tantas vezes servira de cama para o agora ex-dono desse corpo (…)

TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.204. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Normalidade

E a alegria cedeu lugar ao tédio vulgar da vida cotidiana e ao sentimento de uma perda irreparável.

TCHEKHOV, Anton. Tifo in A Dama do Cachorrinho e Outros Contos, p.185. São Paulo: Ed. 34, 1999.

Homecoming

(…) it was terrifying to think that she might forget to breathe, and then she would die.

PLATONOV, Andrei. Dzhan in The Fierce And Beautiful World, p.49. New York: New York Review Books, 2000.

Barba ruiva

A senhora, querida mãezinha, conhece o pai e o caráter teimoso que ele tem; pois então ele fez o seguinte: tingiu descaradamente a barba ruiva de preto e foi à cidade de Maikop, à paisana, de modo que nenhum dos habitantes sabia que ele e o guarda rural do velho regime eram a mesma pessoa.

BÁBEL, Isaac. O Exército da Cavalaria, p.31-32. São Paulo: Cosac Naify, 2006.