Ausências

(…) Há uma estranha alegria em saber que ainda conseguimos ficar tristes. Significa, entre outras coisas, que não estamos perdidos.

BENEDETTI, Mario. Correio do Tempo, p.82. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

Cão

(…) Quando Celina o pegava para anotar no livro de música os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não soltava, ele se mexia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e observava entre as pernas das notas, buscando um lugar branco onde morder. Por fim Celina o soltava e ele, como um leitãozinho quando mama, se dependurava vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas do seu curto casco negro e mexia alegremente o longo rabo vermelho.

HERNÁNDEZ, Felisberto. O Cavalo Perdido e outras histórias, p.31. São Paulo: Cosac Naify, 2006. Tradução de Davi Arrigucci Jr.

Acontecimento

No dia treze de janeiro do ano corrente de mil oitocentos e sessenta e cinco, ao meio-dia, Ielena Ivânovna, esposa de Ivan Matviéitch, meu culto amigo, colega de serviço e parente em grau afastado, quis ver o crocodilo que era exibido na Passagem mediante determinada quantia.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O Crocodilo, p.15. São Paulo: Editora 34, 2000. Tradução de Boris Schnaiderman.

Mariposas

Quando chegou mais baixo, passou a voar rasante, sapecando a copa das árvores. De perto, a pista de dança perdia a aparência de flor. Transformava-se numa visão infantil de Ano Novo, um imenso emaranhado de lâmpadas coloridas brilhando por entre os ramos, de onde emanava música de surpreendente vulgaridade e estranha beleza.

PELEVIN, Victor. A Vida dos Insetos, p.51. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. Tradução de Lia Wyler.

Café, senhoras?

Mesmo depois de todos aqueles anos, não compreendia por que os americanos queriam café imediatamente, no instante em que o garçom chegava. Eles tomavam café quente, então suco de laranja gelado, então mais café. Não fazia absolutamente nenhum sentido.

BARNES, Julian.  As Coisas Que Sabemos in Um Toque De Limão, p.71. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

Regozijo

Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo tudo o que existisse no mundo.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo, p.31 e p.32. São Paulo: Ed.34, 2000.

Gato

Sophie, animada de repente por uma obscura, mas forte convicção de que sabia o que havia de errado em tudo, subiu correndo os degraus.

FOX, Paula. Desesperados, pg.42. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

E não havia palavras, porque não havia pensamento possível para essa força capaz de transformar pedaços de lembrança, imagens isoladas e insignificantes, num repentino bloco vertiginoso, numa viva constelação aniquilada pelo próprio ato de mostrar-se, uma contradição que parecia oferecer e negar ao mesmo tempo o que Juan, bebendo o segundo copo de Sylvaner, contaria mais tarde a Calac, a Tell, a Hélène, quando os encontrasse na mesa do Cluny e que agora lhe teria sido necessário possuir de algum modo, como se a tentativa de gravar essa lembrança já não provasse que era inútil, que ele estava jogando pás cheias de sombra contra a escuridão.

 

CORTÁZAR, Julio. 62 Modelo Para Armar, p.10. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Porte

Minha amante, com seu traje shakespeariano, estava tão perfeita, tão esbelta, tão compacta, que hesitei antes de abraçá-la; chego a pensar que foi uma ilusão — como se algum truque de computador de última geração tivesse melhorado a fita gasta de minha memória — o abraço que trocamos. Seu corpo forte, de ombros largos, com ímpeto atlético da postura na ponta dos pés descalços, apertou-se contra o meu com um ardor ameaçador.

UPDIKE, John. Memórias em Branco, p.256. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Busca

(…) o quê, propriamente, eu vim fazer aqui? - por que é que me sentia tão estranhamente atraído e seduzido pela vida desse homem que desprezava a mim (”é evidente”, “é sabido”, como ele gostava de falar) e aos meus semelhantes? (…)

TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.206. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Leito

(…)  e ele ficou admirado com a brancura do corpo do morto e pelo fato de esse corpo, que agora não passava de uma carcaça, ter sido virado e colocado sobre a palha,  que nos trabalhos forçados, provavelmente, tantas vezes servira de cama para o agora ex-dono desse corpo (…)

TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.204. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Normalidade

E a alegria cedeu lugar ao tédio vulgar da vida cotidiana e ao sentimento de uma perda irreparável.

TCHEKHOV, Anton. Tifo in A Dama do Cachorrinho e Outros Contos, p.185. São Paulo: Ed. 34, 1999.

Puta

Só nos resta a esperança de que o bezerro ainda esteja vivo. Oxalá não tenha tido a idéia de atravessar o rio atrás da mãe. Porque se foi, vai estar faltando um tantinho assim para a minha irmã Tacha virar puta. E mamãe não quer isso.

RULFO, Juan. É Que Somos Muito Pobres in Chão Em Chamas, p.209. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Homecoming

(…) it was terrifying to think that she might forget to breathe, and then she would die.

PLATONOV, Andrei. Dzhan in The Fierce And Beautiful World, p.49. New York: New York Review Books, 2000.

Junta

E se fosse uma só palavra, eu poderia dar de presente esta noite ou amanhã a Julita, quando me pedir, como sempre, que lhe deixe uma palavra que possa durar-lhe todo o dia seguinte, para ir gastando-se como uma vela, frente à lembrança do meu irmão morto. A sete chaves, lhe diria, sentindo-me um pouco consolado, mais livre dele e de sua tristeza viciada.

ONETTI, Juan Carlos. Junta-Cadáveres, p.5. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.

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