Pá
E não havia palavras, porque não havia pensamento possível para essa força capaz de transformar pedaços de lembrança, imagens isoladas e insignificantes, num repentino bloco vertiginoso, numa viva constelação aniquilada pelo próprio ato de mostrar-se, uma contradição que parecia oferecer e negar ao mesmo tempo o que Juan, bebendo o segundo copo de Sylvaner, contaria mais tarde a Calac, a Tell, a Hélène, quando os encontrasse na mesa do Cluny e que agora lhe teria sido necessário possuir de algum modo, como se a tentativa de gravar essa lembrança já não provasse que era inútil, que ele estava jogando pás cheias de sombra contra a escuridão.
CORTÁZAR, Julio. 62 Modelo Para Armar, p.10. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.