Ausências
(…) Há uma estranha alegria em saber que ainda conseguimos ficar tristes. Significa, entre outras coisas, que não estamos perdidos.
BENEDETTI, Mario. Correio do Tempo, p.82. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
(…) Há uma estranha alegria em saber que ainda conseguimos ficar tristes. Significa, entre outras coisas, que não estamos perdidos.
BENEDETTI, Mario. Correio do Tempo, p.82. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
(…) Quando Celina o pegava para anotar no livro de música os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não soltava, ele se mexia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e observava entre as pernas das notas, buscando um lugar branco onde morder. Por fim Celina o soltava e ele, como um leitãozinho quando mama, se dependurava vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas do seu curto casco negro e mexia alegremente o longo rabo vermelho.
HERNÁNDEZ, Felisberto. O Cavalo Perdido e outras histórias, p.31. São Paulo: Cosac Naify, 2006. Tradução de Davi Arrigucci Jr.
E não havia palavras, porque não havia pensamento possível para essa força capaz de transformar pedaços de lembrança, imagens isoladas e insignificantes, num repentino bloco vertiginoso, numa viva constelação aniquilada pelo próprio ato de mostrar-se, uma contradição que parecia oferecer e negar ao mesmo tempo o que Juan, bebendo o segundo copo de Sylvaner, contaria mais tarde a Calac, a Tell, a Hélène, quando os encontrasse na mesa do Cluny e que agora lhe teria sido necessário possuir de algum modo, como se a tentativa de gravar essa lembrança já não provasse que era inútil, que ele estava jogando pás cheias de sombra contra a escuridão.
CORTÁZAR, Julio. 62 Modelo Para Armar, p.10. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
Só nos resta a esperança de que o bezerro ainda esteja vivo. Oxalá não tenha tido a idéia de atravessar o rio atrás da mãe. Porque se foi, vai estar faltando um tantinho assim para a minha irmã Tacha virar puta. E mamãe não quer isso.
RULFO, Juan. É Que Somos Muito Pobres in Chão Em Chamas, p.209. Rio de Janeiro: Record, 2004.
E se fosse uma só palavra, eu poderia dar de presente esta noite ou amanhã a Julita, quando me pedir, como sempre, que lhe deixe uma palavra que possa durar-lhe todo o dia seguinte, para ir gastando-se como uma vela, frente à lembrança do meu irmão morto. A sete chaves, lhe diria, sentindo-me um pouco consolado, mais livre dele e de sua tristeza viciada.
ONETTI, Juan Carlos. Junta-Cadáveres, p.5. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.