Cão
(…) Quando Celina o pegava para anotar no livro de música os números que correspondiam aos dedos, o lápis estava desejando que o deixassem escrever. Como Celina não soltava, ele se mexia ansioso entre os dedos que o sujeitavam, e com seu olho único e pontiagudo olhava indeciso e oscilante de um lado para outro. Quando o deixavam aproximar-se do papel, a ponta parecia um focinho que farejava algo, com instinto de lápis, desconhecido para nós, e observava entre as pernas das notas, buscando um lugar branco onde morder. Por fim Celina o soltava e ele, como um leitãozinho quando mama, se dependurava vorazmente no branco do papel, ia deixando as pequenas pegadas firmes e acentuadas do seu curto casco negro e mexia alegremente o longo rabo vermelho.
HERNÁNDEZ, Felisberto. O Cavalo Perdido e outras histórias, p.31. São Paulo: Cosac Naify, 2006. Tradução de Davi Arrigucci Jr.