Regozijo

Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo tudo o que existisse no mundo.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Memórias do Subsolo, p.31 e p.32. São Paulo: Ed.34, 2000.

Gato

Sophie, animada de repente por uma obscura, mas forte convicção de que sabia o que havia de errado em tudo, subiu correndo os degraus.

FOX, Paula. Desesperados, pg.42. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

E não havia palavras, porque não havia pensamento possível para essa força capaz de transformar pedaços de lembrança, imagens isoladas e insignificantes, num repentino bloco vertiginoso, numa viva constelação aniquilada pelo próprio ato de mostrar-se, uma contradição que parecia oferecer e negar ao mesmo tempo o que Juan, bebendo o segundo copo de Sylvaner, contaria mais tarde a Calac, a Tell, a Hélène, quando os encontrasse na mesa do Cluny e que agora lhe teria sido necessário possuir de algum modo, como se a tentativa de gravar essa lembrança já não provasse que era inútil, que ele estava jogando pás cheias de sombra contra a escuridão.

 

CORTÁZAR, Julio. 62 Modelo Para Armar, p.10. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.