Porte

Minha amante, com seu traje shakespeariano, estava tão perfeita, tão esbelta, tão compacta, que hesitei antes de abraçá-la; chego a pensar que foi uma ilusão — como se algum truque de computador de última geração tivesse melhorado a fita gasta de minha memória — o abraço que trocamos. Seu corpo forte, de ombros largos, com ímpeto atlético da postura na ponta dos pés descalços, apertou-se contra o meu com um ardor ameaçador.

UPDIKE, John. Memórias em Branco, p.256. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Busca

(…) o quê, propriamente, eu vim fazer aqui? - por que é que me sentia tão estranhamente atraído e seduzido pela vida desse homem que desprezava a mim (”é evidente”, “é sabido”, como ele gostava de falar) e aos meus semelhantes? (…)

TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.206. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Leito

(…)  e ele ficou admirado com a brancura do corpo do morto e pelo fato de esse corpo, que agora não passava de uma carcaça, ter sido virado e colocado sobre a palha,  que nos trabalhos forçados, provavelmente, tantas vezes servira de cama para o agora ex-dono desse corpo (…)

TSIPKIN, Leonid. Verão em Baden-Baden, p.204. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Normalidade

E a alegria cedeu lugar ao tédio vulgar da vida cotidiana e ao sentimento de uma perda irreparável.

TCHEKHOV, Anton. Tifo in A Dama do Cachorrinho e Outros Contos, p.185. São Paulo: Ed. 34, 1999.

Do expediente

Tenho recebido colaborações para o blog, o que me deixa muito satisfeito. Legal que a idéia interessa a outros, ao ponto de mandarem seus próprios trechos dignos de destaque.

No entanto, nesse primeiro momento, restringirei a partipação dos leitores aos comentários. Ainda quero mais uns dias para definir estruturas e padrões para que tudo funcione de forma ordeira. Mas aceito e fico muito feliz com material enviado para meu e-mail: bgalera arroba gmail ponto com. Assim que a coisa entrar bem nos eixos, prometo ir colocando no ar o que for chegando.

Puta

Só nos resta a esperança de que o bezerro ainda esteja vivo. Oxalá não tenha tido a idéia de atravessar o rio atrás da mãe. Porque se foi, vai estar faltando um tantinho assim para a minha irmã Tacha virar puta. E mamãe não quer isso.

RULFO, Juan. É Que Somos Muito Pobres in Chão Em Chamas, p.209. Rio de Janeiro: Record, 2004.

Homecoming

(…) it was terrifying to think that she might forget to breathe, and then she would die.

PLATONOV, Andrei. Dzhan in The Fierce And Beautiful World, p.49. New York: New York Review Books, 2000.

Junta

E se fosse uma só palavra, eu poderia dar de presente esta noite ou amanhã a Julita, quando me pedir, como sempre, que lhe deixe uma palavra que possa durar-lhe todo o dia seguinte, para ir gastando-se como uma vela, frente à lembrança do meu irmão morto. A sete chaves, lhe diria, sentindo-me um pouco consolado, mais livre dele e de sua tristeza viciada.

ONETTI, Juan Carlos. Junta-Cadáveres, p.5. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.

Grão

(…) e nos teus olhos eu vejo o susto e o grão de uma lágrima sobre a qual me concentro, torcendo para que ela se faça gorda e de difícil equilíbrio sobre o bordo inferior da tua pálpebra, para que ela fique estupefada e brilhosa e a ponto de piscar (…)

BARBOSA, Amilcar Bettega. Crônica de Uma Paixão in Os Lados do Círculo, p.61. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Barba ruiva

A senhora, querida mãezinha, conhece o pai e o caráter teimoso que ele tem; pois então ele fez o seguinte: tingiu descaradamente a barba ruiva de preto e foi à cidade de Maikop, à paisana, de modo que nenhum dos habitantes sabia que ele e o guarda rural do velho regime eram a mesma pessoa.

BÁBEL, Isaac. O Exército da Cavalaria, p.31-32. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

Agrimensor

(…) teve de rir involuntariamente porque o cheiro era tão doce, tão acariciante, como quando alguém ouve elogios e belas palavras de uma pessoa a quem se quer muito bem e não sabe exatamente do que se trata, nem quer saber, mas está feliz com o conhecimento de que é essa pessoa que fala desse modo.

KAKFA, Franz. O Castelo, p.158. São Paulo: Companhia Das Letras, 2000.

Adendo

Os trechos publicados serão sempre no idioma do volume consultado. 99% em português, mas calhou agora de eu trazer alguma coisa em inglês do exterior. Se surgir algo em espanhol, é sinal de que estou me esforçando muito.

Relíquias

What makes us randy for relics? Don’t we believe the words enough?

BARNES, Julian. Flaubert’s Parrot, p.3. Londres: QPD, 2000.

Missão

A idéia de criar este blog surgiu em paralelo a uma necessidade que vinha sentindo há algum tempo: abrir todos os livros que tenho e passar a limpo tudo o que, por algum motivo, destaquei durante a leitura. Frases, parágrafos, citações de terceiros, enfim: tudo aquilo que merece um rabisco que realce a idéia para o futuro.

Pessoalmente, tenho o péssimo hábito de marcar com caneta. Já utilizei lápis, mas considerei que apagar os riscos seria tão improvável que parei de perder tempo. Noutro quesito, devo confessar que sou extremamente materialista com livros, e não pretendo me desfazer de nenhum deles, jamais. Por conta disso, não me preocupo muito com a pichação desenfreada.

Como todo blog que faço, esse não tem outro objetivo que não o meu entretenimento pessoal. No entanto, num primeiro momento os comentários estarão abertos para troca de idéias. Quem sabe, daqui a algum tempo, o propósito se solidifique o suficiente para ser ampliado a colaborações.

Pretendo também ir organizando os links e as categorias de forma contínua. Um layout próprio também está nos planos.