Um blog de aleatoriedades sem um objetivo concreto. Por Bruno Galera.
Minha relação com o Gabriel sempre foi um tanto curiosa. Fechávamos em vários assuntos, e foi por esse motivo que aceitei o convite dele de fazer do Insanus não mais um domínio pessoal, mas um portal (que ele tanto gostava de chamar de comunidade). Como todo mundo sabe, ele era um empreendedor: eu só movi meus arquivos pra lá e comecei a postar, sem nunca dar muita bola pra essas coisas sociológicas que ele gostava de aplicar à Internet. As coisas à volta foram crescendo de forma assustadora, porque ele estava fora de controle o tempo todo. Eu, sempre cético e meio blasé, apenas acenava que sim ou não.
Parte da personalidade dele me irritava o suficiente pra eu querer me afastar, vez que outra. Como ele estava sempre pilhado demais, mesmo quando eu julgava melhor o silêncio ele arranjava um jeito de tocar o horror sem fim. Às vezes era arruinando uma festa com hits dos anos 90 que eu também gostava, mas que não agüentava ouvir mais. Às vezes vinha a uma hora completamente inapropriada pedir pra eu testar um layout no Internet Explorer, e eu ficava puto, mesmo sendo uma das coisas que mais gosto de fazer.
Nos gostos parecidos e na irritação, surgia um equilíbrio muito estranho. Eu me sentia mal quando cortava os naipes dele por não compartilhar de alguma empolgação. Muitas vezes devo ter sido estúpido e, mesmo assim, conversávamos diariamente no MSN sobre absolutamente todos os assuntos. Era escrevendo que nos dávamos melhor, e foi assim que respondi muitas dúvidas e ele me ensinou coisas sobre HTML que nunca tinha visto antes. Opinei sobre coisas da monografia dele dezenas de vezes, sempre recusando convites de encontrá-lo depois em algum bar.
Estávamos esboçando uma banda, eu ele e o Antenor. Seriam só covers de bandas ruins entre 1995-1997, anos de ouro da MTV nas nossas vidas. Fizemos uma reunião na casa dele pra definir um setlist e, de praxe, ele surtou solando com um Big Muff no talo naquele amplificadorzinho dele. Me irritei um pouco de novo, mas não o suficiente. Semana passada, última vez que vi ele, veio aqui em casa deixar o baixo canhoto do Menezes, que fiquei de reformar para começarmos os ensaios. Evidentemente, procrastinei e nada foi adiante. Aposto que nesse tempo ele tirou todas as músicas.
Um pouco do meu nervosismo devia ser uma reação a essa agitação natural dele, que trouxe tantas realizações e magnetizou tantas pessoas. Da naturalidade dele ir pra praia e me passar as senhas de administração do Insanus e falar “cuida da capa”, mesmo eu fazendo pouco caso do portal quase que o tempo todo. Ele bombardeava minhas convicções permanentemente, e aos poucos fui me dando conta disso. Acho que essa é uma das maiores virtudes que pode existir numa pessoa.
[...] Muito do que eu gostaria de dizer sobre o Gabriel foi dito melhor pelo Bruno, pelo Daniel e pelo Solon. Tenho pouco a acrescentar, mesmo porque não consigo articular nada muito complexo sobre o assunto sem nublar os olhos e ficar olhando para o vazio. [...]
[...] Na capa do Insanus, uma rápida homenagem para o Gabriel. Posts de luto também podem ser encontrados nos blogs do Bruno (1 e 2, Solon (1 e 2), Douglas (1 e 2), Mirella, Daniel, Tainá, Parada, Láudano, Cléber e Träsel (neste último estão se concentrando os comentários). Vou restringir esta lista aos comentários de amigos e conhecidos do Gabriel, mas os amigos apreciam muito as condolências que não pararam de chegar de todos os cantos (por exemplo, do Pedro Dória no NoMínimo). Não é à toa que foi o funeral mais concorrido que já vi na vida. [...]
Não conheci a figura mas pela primeira vez te vejo realmente baixando a guarda. Acho vocês todos fantásticos e sei mesmo o que tu tá passando (perdi meu pai faz 5 meses). Achei que nunca ia te ver assim. Tudo isto mexe direto com a gente. Me identifico com muitas coisas dele, o nervosismo, a agitação, sempre estar ancioso. Mas quando agente vê as mensagens dos amigos sem aquela coisa “piegas” tudo faz sentido. Que inveja. Abraço. Marcos.