Essa semana tiver oportunidade de utilizar o Morae pela primeira vez. Este software é muito útil para captar, decupar e gerenciar testes de usabilidade. Ele permite fazer o cadastro e acompanhamento das tarefas, mesclando muito bem o registro dos passos feitos pelo usuário com outputs mensuráveis e comparáveis, que podem ser utilizados em análises gráficas. Também exporta facilmente vídeos em formato .avi e .mpg.
A tour de apresentação das funcionalidades tem cerca de 22 minutos. Não só mostra as possibilidades de aplicação, mas também explica muito bem o que pode ser feito e entregue através desse tipo de teste. Fundamental para que times possam avaliar a qualidade das intefaces que estão entregando aos clientes.
Provavelmente o assunto renderia mais em algum blog sobre produtividade pessoal, mas não pude deixar de refletir acerca do meu comportamento como usuário de Internet diante do estudo recente divulgado pelo Nielsen Norman Group.
“Agora, quando estão online, as pessoas sabem o que querem e como fazer para achar”
Eu me encaixo bastante nessa declaração. Modéstia a parte, sempre fui muito eficiente em encontrar o que quero na web. É chocante perceber que grande parte das pessoas não têm o hábito de simplesmente procurar a resposta da suas dúvidas no Google, antes de perguntar para alguém. Para mim, isso é tão natural que nem chega a parecer um expediente de consulta.
Acho bom que os usuários comecem a ter mais sucesso nas suas tarefas. Se os sites estão contribuindo para isso, com conteúdo estruturado e semântico, melhor ainda.
Mas tenho uma ressalva: meu comportamento ao navegar é totalmente caótico. Se é bem verdade que cada vez tenho menos tempo e pouco fico em uma mesma página, também é um fato que continuo entrando no browser e abrindo cinco abas ao mesmo tempo. O curioso é que isso acontece mesmo quando tenho uma meta muito específica em mente. Como agora, onde vim procurar um telefone e acabei checando e-mails, lendo feeds e escrevendo esse post.
Vejam que não estou discordando da pesquisa do Nielsen. No entanto, seria interessante ver estudos mais focados em comportamentos de navegação de acordo com a personalidade dos usuários. Por mais que eu leia sobre produtividade e tente me organizar, não consigo ser sempre uma pessoa que vai direto ao ponto. E em se tratando de Internet, carrego comigo um romantismo que implica se perder aleatoriamente, muito feliz, por um mar de conteúdos e possibilidades.
O Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é um dos poucos lugares no Brasil onde você pode fazer cursos de pós-graduação (especialização) em Engenharia de Usabilidade em Sistemas Interativos. Agora, além disso, eles estão oferecendo dois cursos de extensão, bem mais curtos e focados em áreas mais específicas da usabilidade de sistemas.
Sei que o Instituto é referência nacional no assunto, mas não posso deixar de achar os preços meio salgados. O curso Avaliação de Usabilidade e Acessibilidade de Sistemas Interativos, com 15 horas/aula, custa R$ 306,00 (trezentos e seis reais). Em comparação com outros cursos de extensão da UFRGS, pelo menos, é bem mais caro. Outro departamento bastante prestigiado na instituição, o de Fotografia, cobra R$ 250,00 por uma extensão com o dobro de horas/aula. Não reclamo nem discuto o mérito dos dois, apenas acho importante fazer a comparação.
E só para encher o saco e não dizerem que só falo mal de designers: bem que a UFRGS poderia fazer como a PUC e chamar estudantes de comunicação ou design para refazer seus sites. Todos eles.
Para quem perdeu ou quiser rever as apresentações da etapa gaúcha do Word Usability Day 2007, uma boa notícia: o conteúdo já está disponível. O evento foi bastante bom, então recomendo que se dê ao menos uma passada de olhos em todos os slides.
Os pontos altos, na minha opinião, foram as oficinas. Marcos Nähr e Renato Rosa se saíram muito bem, tanto nas suas exposições quanto nas atividades propostas. Botar o pessoal para analisar sites com base nas heurísticas do Nielsen foi uma idéia muito feliz do Rosa, porque deu para ver que pouca gente (eu incluso) realmente bota a mão na massa depois de ler esse tipo de conceito. Lemos, entendemos, mas dificilmente pegamos um site problemático para criticar e realmente tentar buscar alternativas para melhorar a experiência do usuário. E o produto disso são discussões muito oportunas e vários pontos de vista que ajudam (e muito) a melhorar a experiência de cada profissional.
Já tinha gostado bastante da fala do Nähr no EWD 2006 aqui em Porto Alegre, e a oficina dele no WUD também rendeu. Dividir a platéia conforme os estilos de aprendizagem de Kolb foi legal porque realmente enfatizou o que eu disse antes: diversas impressões diferentes sobre um mesmo assunto (no caso, a usabilidade da nova Amazon). Incrível descobrir que, mesmo num universo reduzido (umas 30 pessoas), o tipo de reação a um mesmo objeto de análise pode variar muito. Todos acharam problemas e virtudes na loja, mas o caráter da crítica variou, indo da admiração à defenestração completa (alguém falou que todo o layout parecia jogado aleatoriamente e que eles pareciam não se importar com design, do que eu discordo frontalmente).
Tomara que o WUD continue rendendo frutos e, especialmente, mudanças no mercado no que diz respeito à usabilidade de projetos web.
Um dos paradigmas mais recorrentes no momento de conceber uma interface para a Internet diz respeito a um mito que tornou-se bastante popular com o passar dos anos: o de que usuários não usam a barra de rolagem (scroll) para navegar pelo conteúdo. Isso se origina de uma premissa parcialmente verdadeira, o que produz a confusão citada. Usuários não usam o scroll se a navegação não for fluida o suficiente, ou se ela não fornecer elementos que justifiquem tal ação.
Outro mito antigo, que já caiu por terra há um bom tempo, é de que os usuários só navegam pelos links fornecidos dentro do site em si. Isso é um absurdo, dado que já é senso comum que o botão "voltar" do browser, por exemplo, é o segundo elemento de navegação mais utilizado, depois dos próprios hyperlinks (NIELSEN, 1999). Ainda assim, pessoas continuam tentando interferir nas escolhas do usuário, que é quem deve decidir como quer fazer as coisas.
A respeito dessa sensação de onipotência sobre o que o internauta vai poder fazer enquanto navega, já ouvi pessoas querendo bloquear o aumento e redução de fontes feitos pelos softwares. Acho engraçado essa gente jamais perguntar por que seu layout quebra quando as letras mudam de tamanho e o que se pode fazer para corrigir isso no nível de codificação. Não, é muito mais sedutor tentar exercer um poder de cima para baixo, condicionando o visitante a uma (má) experiência.
Voltando ao scroll, que é um problema ainda bastante recorrente: clientes até pedem por isso, algumas vezes. Me parece que é um condicionamento oriundo dos designers, que ainda insistem nessa prática ou são seduzidos por abrir um site num pop-up despido de comandos de navegação padrão. Claro, a culpa não é toda deles, porque sempre vem alguma ordem superior. Mas eles têm sua cota de participação na história, é inegável.
Sobre isso, o Jared Spool fez um comentário rápido e incisivo, no contexto de sua apresentação sobre aroma da informação (tradução livre de scent of information):
Users scroll. Designers usually create barriers for this.
Como justificativa, usou um exemplo extremo. O site de uma empresa de componentes eletrônicos listava todos os seus produtos numa só página na capa, em três colunas divididas horizontalmente por categorias. Todos os produtos eram apresentados com seus nomes, linkados diretamente no texto azul e sublinhado. Horror para designers e arquitetos de informação, mas uma tentativa de mudança nessa estrutura redundou numa enxurrada de reclamações de clientes, que não consigam mais achar o que procuravam.

Como dito, o exemplo é extremo. O público é muito específico (engenheiros eletrônicos e entusiastas), e provavelmente outras pessoas não teriam paciência de rolar uma tela imensa cheia de itens. No entanto, nesse contexto, uma tentativa de "facilitar" a navegação evitando o uso de scroll quase tornou-se desastrosa.
Por isso é tão importante refletir sobre esse ponto, não simplesmente decretando "não vamos usar rolagem" ou "teremos rolagem horizontal para diferenciar-nos do resto". Cada situação é diferente, e depende sempre do tipo e quantidade de informação, bem como os perfis de público que potencialmente tentarão se beneficiar dela.