Está mais do que claro para desenvolvedores que um código de marcação bem formado e obedecendo critérios semânticos é a chave para que um site se saia bem em todos os aspectos: usabilidade, acessibilidade, SEO e integração com bancos de dados e CMS. Vender esse conjunto de especificidades é simples na teoria, e pode parecer também fácil na prática. Só que não é bem assim.
Sobre isso, há um bom post do Élcio respondendo uma pergunta feita depois da sua palestra no Intercon 2007: como fazer com que o cliente pague por padrões web, acessibilidade e toda essa qualidade, quando há gente por aí desenvolvendo sites a R$ 70,00?
Padrões web, usabilidade, acessibilidade, Ajax, tudo isso tem um custo, mas não é isso que seu cliente compra. (…) É uma questão de números, R$ 25.000,00 pode ser muito barato se você puder mostrar a ele que vale a pena.
Mostre a seu cliente quanto dinheiro ele vai ganhar, ou quanto ele vai poupar. Dê a ele segurança disso, e ele vai achar seu preço barato.
Esse discurso deve ser aliado à explicitação dos benefícios que um bom código pode trazer: melhor posicionamento nas buscas do Google, maior acessibilidade a pessoas com deficiências ou dificuldades técnicas, melhor portabilidade para dispositivos móveis, entre outros. Mas, por incrível que pareça, às vezes tudo isso pode simplesmente não funcionar.
Já consegui deixar clientes plenamente cientes das vantagens de um site desenvolvido seguindo web standards, evitando texto e navegação em Flash e animações que levam 15 minutos para carregar numa conexão banda larga. Chegaram até mesmo a concordar com a direção sugerida para a produção do projeto.
Só que isso pode simplesmente mudar de uma hora para outra. Algum diretor pode aparecer do nada e dizer que o site precisa ser todo em Flash, igual ao dos seus concorrentes (que são horríveis e funcionam mal). Nada importa nesse momento, a não ser a (falsa) impressão visual vendida pela maioria das agências digitais do país.
O desenvolvedor fica de mãos atadas até mesmo quando alia seu conhecimento técnico a uma explicitação clara de vantagens competitivas e de retorno de investimento. Assim como existem executivos que não compram esse negócio de site aí, como o próprio Élcio falou, também ocorre o segundo fenômeno: quero um troço bonito e que encante, não importa quanto vai custar, nem que 70% dos usuários fechem o site na capa sem nem mesmo esperar carregar o Flash de abertura. E o pior: algumas vezes essas pessoas reconhecem que você está certo, mas respondem algo como vamos deixar o site acessível e bom para dispositivos móveis num segundo momento. Alguns não se importam nem quando é provado que isso implicará em custos adicionais que poderiam ser abatidos num único projeto bem feito!
Já li muitos artigos a respeito disso, e quase sempre se toca em dois pontos: educação (de cliente, mercado e dos próprios desenvolvedores) e falar a língua certa (mostrar onde e como se vai ganhar mais dinheiro e/ou reduzir custos). Ambos estão corretos e precisam ser considerados, mas vejo pouca gente considerar o fator do horror absoluto e aleatório presente em todos os fatos da vida: às vezes simplesmente não dá para usar a razão, e as coisas nem sempre podem ser previstas.
Particularmente, estou adotando o lema do Zeldman para os casos mais graves da aleatoriedade sem sentido. Alguns profissionais são do tipo “deixa comigo” e fazem tudo que o cliente quer. Realmente admiro gente assim, porque conseguem tocar todos os projetos até o fim, seja qual for o obstáculo no caminho.
Eu devo ser mais temperamental, ou possuir um instinto maior de auto-preservação. Portanto, quando aparece um caso como relatei anteriormente (surge um elemento que passa por cima de tudo que já foi acordado), geralmente pego minha mochila e dou no pé. Se precisar sobreviver fazendo outra coisa, corto a grama dos vizinhos, que é algo bem mais digno.
